[CANTO DO CONTO] De Geração em Geração


Bom dia leitores!
Mais um conto de Vanessa Santos chegando no Doces Letras.
Espero que apreciem e que deixem seus comentários.

DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO

“Na mitologia Greco romana, Saturno ou Cronos- o deus do tempo- era representado como um gigante devorador dos próprios filhos. O monstro engole todos os homens. É preciso que olhemos para ele como um mestre mais idoso e mais severo, mas também com um componente de sabedoria e ponderação.” (Canteiros de Saturno).



João era órfão, mulato e semianalfabeto. Crescera por aqui e por ali. Roubava por ali e por aqui pelas ruas do Rio de Janeiro na década de vinte. Fazia de tudo para sobreviver mesmo que a margem. Queria e tinha pelo que lutar: por si mesmo.
É conhecido que o Tempo é um gigante devorador, mas em alguns casos age como um jardineiro, um construtor.
Com muito esforço, João entra para a Marinha não por ideologia, mas por questão de sobrevivência. Afinal de contas onde arranjaria três refeições quentes por dia? Junta uma grana, batalha (mais do que a maioria por ser mulato na década de vinte), se converte ao catolicismo, “pula” a revolta da Chibata e investe no café. Com a ajuda do Tempo, méritos e esforços próprios consegue vencer a si mesmo. Independente do contexto que se encontrava, do preconceito de sua cor e de sua situação social.

Vladimir fora nascido e criado sob a égide dos valores burgueses cristãos de seus pais. Tijucano da década de 60 era rato de praia e dono de um carro Landau. Como um típico burguês da Tijuca seu destino estava selado: estudar no exterior, cursar economia e assumir as empresas do pai. Mas como diz a citação introdutória “o tempo é um gigante devorador dos próprios filhos.” Ele permanece o mesmo enquanto perpassa por nós. Molda-nos, nos transforma. Esculpe nossa alma e espirito e deixa marcas boas ou ruins. E Vladimir não ficara isento da passagem de Cronos.

 Na universidade do Brasil ao se deparar com Marx e Engels, Lenin, Gramsci, Weber e companhia, as cortinas de seu espetáculo particular abrem-se. Sua mente muda e a caverna burguesa na qual habitava é demolida sem deixar vestígios. O preto e branco que pintavam o seu mundo, são substituídos pelas cores tormentosas da pobreza e da injustiça. Seus olhos são abertos à diversidade cultural, social e sexual. Frequentava o Opinião e saía de lá exultante com as peças e shows de músicas cheias de consciência política. As intermináveis conversas no bar com os camaradas o estimulavam ainda mais. No Calabouço, o restaurante da universidade, participa de reuniões, protestos e manifestações. Adquire consciência politica e social. Experimenta pela primeira vez um amor incondicional pela pátria e pelo povo.

O ano de 68 chega implacável e mais uma vez seu destino é selado: rompe de vez com os valores tradicionais e conservadores familiares. Larga o curso de Economia, pede transferência para jornalismo e se lança na liderança Estudantil. Participa das manifestações pacificas e também violentas. Em determinado momento entra na clandestinidade. Rouba grandes bancos com grupos guerrilheiros, sequestra embaixadores americanos. Seu destino é selado novamente: Rebelde procurado. Exílio. Mas o amor pelo seu país e ideais permanece. Tem lugar cativo. O destino desse amor ele mesmo selara: seu coração.

 O monstro engole todos os homens. “É preciso que olhemos para ele como um mestre mais idoso e mais severo, mas também com um componente de sabedoria e ponderação.”

Durante o exílio, Vladimir se encontra com Milan Kundera, Ferreira Gullar e Saramago. Continua com a veia ativista, mas aquieta-se seguindo uma linha moderada como esses autores.  É no exilio que também conhece o amor pela segunda vez na vida. Seu nome era Afrodite.  Quando retorna nos anos oitenta já não é o mais o mesmo.  O Brasil não é mais o mesmo. Entretanto ainda é o mesmo Vladimir.  E ainda é o mesmo Brasil. Abandona Ares por Afrodite. O sacrifício de sua vida privada em favor do público dura até a pagina dois como dizem por aí... Nesse conto durou meia pagina. Casa-se e se estabiliza profissionalmente. Trabalha no jornal de direita do Rio de Janeiro escrevendo “esquerdamente” na sessão de políticas e finanças. Têm um filho e volta a residir na Tijuca.

“O monstro engole todos os homens. É preciso que olhemos para ele como um mestre mais idoso e mais severo, mas também com um componente de sabedoria e ponderação.”

Atualmente Eike tem 18 anos. A idade de seu pai quando pai saiu da caverna elitista.

Em seu duplex na Tijuca em meio a um tédio fora do comum numa manhã de segunda feira, entra sorrateiramente no escritório de Vladimir e vê todas aquelas fotos, documentos e reportagens da época. Le cada reportagem sobre o pai, vê as fotos nos jornais sobre seu avô. Sente o anseio por justiça e luta em cada letra da palavra PROCURA-SE e SUBVERSIVO. Horas após esse mergulho ao passado, ao sair observa a foto do avô João pendurada com certo tipo de orgulho na parede.  Apaga a luz e tranca a porta.  Tem a sensação de ter assistido um filme ou uma peça antiga. Identificou-se com os atores principais e queria fazer parte daquele roteiro. Daquele Tempo. Entra em seu quarto nostálgico por uma época não vivida. Da entrada do quarto, ele encara todas as bugigangas tecnológicas que possui. Pega com desdém em cima a carta de aprovação para a faculdade de Jornalismo. Iria cursar na Federal.  Amassa e joga na lixeira. Caminha ate a varanda e admira a bela vista. Olha o Pão de Açúcar, observa os banhistas no mar, garotas de biquíni andando de bicicleta no calçadão...  Olhando mais atentamente, nota seus amigos no quiosque conversando provavelmente sobre o fim de semana passado fora do país e nas garotas que pegaram. Dá um sorriso e já esquece o “filme antigo” visto minutos atrás. Com a intenção de descer para dar um alô para a galera, pega a carteira e se arruma em frente ao espelho.  Olhando mais atentamente para si, não gosta do que vê. O sorriso se extingue aos poucos. Acende um baseado e se pergunta: “Lutar pelo que?”.

““... Gigante devorador dos próprios filhos. O monstro engole todos os homens... Ah você já sabe o resto... Afinal de contas... Quem se importa?




4 comentários:

  1. A Vanessa sempre manda bem em seus contos! Esse conto me conquistou pela inteligência e pela analogia e comparação utilizada... Talvez nem todos percebam, mas eu percebi e me cativou muito.

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    1. Obrigado Gabi.
      Eu também gosto muito dos contos da Vanessa.
      Bjus

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  2. Conto interessante pra mim do ponto de vista de análise.Conto não é um gênero que goste especificamente de ler, mas gosto de analisar as estruturas, a construção.

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